Disciplina HDL5018 - Memória e Deslocamentos Populacionais

 DISCIPLINA: HDL5018 – Memória e deslocamentos populacionais

 

Docentes: Inês Macamo Raimundo (professora visitanta da Universidade Edurdo Mondlane – Moçambique)

                     Antonio Ribeiro de Almeida Junior (Diversitas – USP)

                     Zilda Márcia Grícoli Iokoi (Diversitas – USP)

Créditos: 02

Datas:

21/11 – Aula 1. Expansão Bantu e povoamento na África Austral

22/11 – Aula 2. Trabalho migratório e formação de famílias transnacionais

24/11 – Aula 3. Movimentos transfronteiriços

28/11 – Aula 4. Deslocamentos forçados

29/11 – Aula 5. Movimentos migratórios ilegais/irregulares e fronteiras 

Horário: das 14:00 às 18:00

Local: Sala Multimídia da Casa de Cultura Japonesa – Av. Prof. Lineu Prestes, 159 – Cidade Universitária

Período de Matrícula: Até 18/11/2016  (Enviar email para diversitas@usp.br solicitando a matrícula na disciplina, informar nome completo, nº USP, curso e programa que está matriculado)

 

 

PROGRAMA

 

OBJETIVOS:

A migração e a mobilidade são fenômenos que caracterizam o quotidiano social e econômico dos povos. Quando ocorrem não têm fronteiras geográficas, e muito menos se circunscreverem a lugares específicos. Ocorrem em todos os continentes e em todas as direções. O que as difere são as circunstâncias, as motivações e o tempo em que ocorrem. Entretanto, a perspectiva dos debates é aquela que ocorre em torno das pessoas que se deslocam a partir dos países em desenvolvimento em direção aos países ricos da Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia. Pouco, ou quase nada se discute, por exemplo, dos movimentos que ocorrem dentro do continente africano, com menor grau de igualdade, de solidariedades, ou como que se dirigem ao Brasil, Argentina, entre outros. Nota-se ainda uma baixa tensão nas fronteiras sobre a visão e a história das migraçõs de indivíduos ou grupos de indivíduos, sobre as escolhas que estas pessoas fazem.

Estudar as memórias e deslocamentos populacionais significa preencher o percurso do migrante, contexto em que a migração ocorre, o seu passado, as ligações entre o anterior “território” e o “atual”, a integração no lugar de chegada, o espaço onde este movimento ocorre e os novos “territórios” que eles criam ou ocupam. 

Tomando como horizonte a hipótese de que as migrações e deslocamentos são a continuidade de fenômenos do passado, não seria espantoso reconhecer, devidos aos conhecimentos históricos anteriores, o panorama atual das migrações: histórias de vida, motivos, discursos, etc. “Memórias e deslocamentos populacionais” por razões de ordem econômica, social, política e ambiental passam a ser temáticas relevantes para o entendimento desses fenôminos.

Pretende-se com estes assuntos discutir memórias e deslocamentos populacionais. Especificamente: a) compreender o percurso dos migrantes, as causas e a integração dos mesmos; b) discutir o processo migratório no continente africano tendo como causa as questões políticas, econômicas, as guerras e a busca de um lugar para a paz. Nesse sentido, a imigração de africanos coloca em questão a necessidade das novas democracias.

 

JUSTIFICATIVA:

Os fluxos migratórios sempre tiveram um papel importante na história da população humana, quer sob forma de movimentos internos das áreas rurais para as urbanas e entre áreas rurais, ou entre áreas urbanas, quer de forma de movimentos regionais e internacionais, na medida em que quando ocorrem afetam Estados, sociedades e a população. Apesar da história caracterizar sociedades em sedentárias e nómades, nos dias de hoje, se torna difícil pensar em algum povo que seja sedentário. Migrar é uma questão de vida para milhões de pessoas que vivem em lugares de conflitos, crises econômicas e de exposição permanente a fenômenos naturais, tais como seca, inundações, sismos, vulcões e ciclones. 

O continente africano, em particular, parece ser o mais “nômade” de todos. Este nomadismo reflete a história dos movimentos populacionais a necessiade subsequente de seus assentamentos, o contato comercial e colonial com a Ásia, Europa e América e a conjuntura econômica, política, social e ambiental. Os movimentos populacionais em África têm sido reportados como os mais dramáticos. Estão associados a deslocamentos forçados resultantes de conflitos, violência, pobreza extrema, perseguições étnicas, redefinição de fronteiras, e a desastres naturais relacionados com o clima.

A migração reflete a história dos povos e as ligações do passado e presente. Em África, por exemplo, os movimentos migratórios ocorreram e ocorrem dentro das chamadas fronteiras físicas, fronteiras convencionais e fronteiras sociais e culturais que os povos foram construindo em vários séculos e as definidas pela conferência de Berlim ou a chamada “partilha do continente africano” ocorrida no século XIX. Por isso, toda a história migratória africana não pode e nem tem como dissociar-se deste processo. Cada migrante carrega consigo o seu passado.

Neste programa procurar-se-á discutir as memórias e os deslocamentos dessas populações, que em nosso entender, são aspectos que se complementam. As memórias refletem o passado migratório dos povos em lugares geográficos específicos e significam estudar as experiências migratórias individuais ou de grupos de indivíduos para perceber os contextos em que os deslocamentos ocorrem e o processo de decisão entre o “sair” e “ficar” em seu território natal.

Assim, propõe-se que sejam temas de debate desse curso a formação de povoamentos e  a expansão Bantu, a definição de fronteiras, o trabalho migratório e os movimentos transfronteiriços de deslocamentos forçados.

 

CONTEÚDO (EMENTA):

1. Expansão Bantu e povoamento na África Austral

2.Trabalho migratório e formação de famílias transnacionais

3. Movimentos transfronteiriços

4. Deslocamentos forçados

- Conflitos armados e tensões políticas, religiosas e sociais

- Desastres naturais

5. Movimentos migratórios ilegais/irregulares e fronteiras 

- O controlo das fronteiras

 

BIBLIOGRAFIA:

Demartini, Z. B. F., 2016, Memórias narradas no feminino: Mulheres portuguesas e luso-africanas nos deslocamentos para o Brasil. Cadernos Ceru, V.26 (1): 153-165.

Penvenne, J., 1982, African workers and colonial labor in Lourenço Marques, Mozambique, 1877 to 1950. Unpublished PhD dissertation. Boston.

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Raimundo, I.M., 2008, Migration and management: Mozambique’s challenges and strategies. In International migration and national development in sub-Saharan Africa: viewpoints and policy initiatives in the countries of origin. Edited by Aderanti Adepoju, Ton van Naerssen and Annelies Zoomers. The Netherlands, pp 91-116.

Raimundo, I.M., 2009, International Migration Management and Development in Mozambique: What Strategies?, International Migration 47(3): 93–122.

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Saíde, A.R.S e Pitrosse, F., 2012, O trabalho migratório de moçambicanos nas farmas da África do Sul, 1975-presente. In Reassentamento populacional, governação autárquica, trabalho migratório e relações internacionais entre Moçambique e Malawi. Publifix, Maputo, Pp 123-177.

Seda, F. L., 2014, Contradictory meanings of border in Ressano Garcia community. International J. Migration and Border Studies, Vol. 1 (2): 154-172.