Luís Filipe Silvério Lima

O objetivo desta pesquisa é investigar os sonhos proféticos dentro dos sermões de Xavier Dormindo do jesuíta português Antonio Vieira (1608-1697), observando a questão do tempo. Além de questões pouco abordadas nos estudos vieirenses, os sonhos,a profecia e o tempo se configuram como elementos para uma compreensão do V Império, matéria à qual Vieira se dedicou durante grande parte de sua vida e possível para a confecção de uma "Teoria Geral do Pe. Vieira". A leitura desses sermões apresenta problemas na clivagem entre as interpretações histórica e literária, devido a própria especificidade do documento, o sermão vieirense. Nesse sentido, estamos propondo uma análise que perceba os aspectos sincrônicos, sem contudo perdera diacronia própria do estudo histórico. Em relação à matéria onírica, fica o problema de como caracterizar esses sonhos proféticos dentro da concepção de tempo vieirense: se meros recursos de convencimento ou se inseridos dentro de uma proposta de projeto teológico-retórico-político como evidências do Advento. Além disso, é necessário refletir se há a constituição, na obra sermônica do jesuíta, de uma onirologia própria, clivada pelo Quinto Império. A relevância do tema e do estudo de Vieira articula-se dentro de uma história social da cultura e das idéias, preocupada com a construção do clima intelectual, religioso e político do século XVII em Portugal.

 


 

Luiz Felipe Falcão

Este trabalho pretende interpretar historicamente um fenômeno sócio-cultural contemporâneo ocorrido no Estado de Santa Catarina e em todo o sul do Brasil, que foi a emergência não apenas de um movimento separatista organizado, mas sobretudo de um amplo sentimento em favor da criação de um novo país reunindo os três estados sulistas (Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina) entre diversas parcelas da população. Tomando por base Santa Catarina, que foi onde o autor teve contato direto com esta situação, e também onde o separatismo revelou-se mais estruturado, o estudo busca desenvolver uma espécie de escavação de caráter histórico nas visões de mundo partilhadas por expressivos segmentos de seus habitantes a fim de localizar algumas das principais matrizes que têm informado uma evidente sensação de desconforto ou mal-estar presente nestas populações no que se refere a uma efetiva incorporação ao Estado brasileiro e mesmo a uma idéia de Brasil Nação. Para isto, a referência temporal adotada foi o correr deste último século, onde as propostas e ações visando a constituição de uma nacionalidade brasileira esbarraram em preocupações não inteiramente coincidentes, sejam as elaboradas por imigrantes europeus e seus descendentes que tinham a aspiração de preservar uma identidade de feição étnica, sejam as construídas por indivíduos ou grupos animados por um regionalismo que absorvia desconfianças e ressentimentos quanto ao Estado brasileiro e ao restante do  país. Visando então compreender o separatismo numa dimensão histórica e cultural, o que muitas vezes escapou àqueles que o analisaram tendo em mira apenas o discurso de suas lideranças mais conhecidas (onde, com certeza, salta à vista o simplismo de muitas das suas formulações ou os preconceitos que as nutrem), optou-se por focalizar as circunstâncias que em Santa Catarina parecem mais ilustrativas das fricções e enferrujamento quanto ao processo de integração na sociedade brasileira, tal como este foi pensado e perseguido por intelectuais e dirigentes políticos situados nos principais centros de decisão do país ou por aqueles que, atuando na própria região sul, com eles comungavam das mesmas idéias. Assim, foram pesquisados e discutidos o chamado "perigo alemão" no início deste século, o integralismo, o nazismo e a campanha da nacionalização durante os anos trinta e quarenta: o tradicionalismo gaúcho nas últimas décadas, e por fim o movimento separatista "O Sul é o meu País" organizado mais recentemente. Abordando através de inúmeras fontes estes momentos e estas manifestações por vezes muito separadas no tempo e muito distintas em seu conteúdo, as reflexões aqui contidas não pretendem sugerir a existência de um generalizado sentimento separatista de longa duração na região do sul do Brasil ou, em particular, no Estado de Santa Catarina, mas sim debater como noções originalmente diversas podem intercambiar sentidos,  resignificando-os ou ser colonizadas de maneira a ganharem um significado novo, Para além disto, porém, pode-se dizer ainda que a maior ambição deste trabalho é problematizar os resultados por vezes surpreendentes e contraditórios da imposição de um modelo de nacionalidade que se esmerou em recusar as diferenças, fossem elas culturais, políticas, ou quaisquer outras baseadas em opiniões argumentativas publicamente sociais asseguradas por um tal modelo de nação.

 


 

Marcel Diego Tonini

Esta dissertação propõe um estudo sobre a questão racial no futebol brasileiro atual a partir das histórias orais de vida de alguns negros que atuaram entre 1970 e 2010. O texto é dividido em três partes: na primeira, é apresentada a história do projeto, com destaque para as discussões teóricas e metodológicas; na segunda, são expostas sete narrativas correspondentes às redes de jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, torcedores, jornalistas e intelectuais; na terceira, são encaminhadas interpretações levando-se em consideração o conjunto dos documentos orais constituídos. Nesta última parte, são explicitados eixos temáticos que buscam articular as experiências individuais com as coletivas e traçar as especificidades de cada profissão abordada. Almeja-se, desta maneira, contribuir para o debate acadêmico com a incorporação dos discursos destes negros e a reflexão sobre as relações raciais no Brasil tomando por base as experiências e as memórias destas pessoas em nosso futebol.

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Marcela Boni Evangelista

Padecer no Paraíso? Experiências de mães de jovens em conflito com a lei é uma pesquisa de história oral, cujo conjunto de procedimentos norteou todas as etapas do trabalho. Seguindo tais pressupostos, constituiu-se o corpus documental baseado nos textos resultantes das entrevistas de história de vida realizadas com seis mulheres-mães de jovens em conflito com a lei. A partir das narrativas construídas em processo de colaboração, pretendeu-se abordar questões ligadas à história do tempo presente e que têm como eixo a experiência de mulheres que vivenciam a maternidade em situação adversa: a da conflitualidade de seus filhos na adolescência. Desta forma, foram discutidos temas como o da militância das mães, as questões de gênero nas relações entre mães e filhos homens e o mito do amor materno e seus múltiplos significados ao longo do tempo.

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Marcelo Gross Villanova

Base da postulação da comunidade política, as leis naturais são resumidas por duas frases, faça aos outros o que gostaria que fizessem a si e a outra não faça aos outros o que gostaria que não fizessem a ti. Hobbes denomina essa síntese das leis naturais de princípio de reciprocidade. Fora essas duas frases, Hobbes não apresenta maiores esclarecimentos quanto ao seu significado. A presente pesquisa pretende refletir sobre a teoria política hobbesiana a partir da problematização do sentido do princípio de reciprocidade, colocando em evidência algo que não está bem explicado e que não ocupa um lugar de pouca importância na sua teoria política. Na literatura crítica é bem conhecida a controvérsia a respeito do papel das leis naturais, da relação entre as leis naturais e leis civis, do direito de resistência, do direito de punir, silêncio das leis. Reflete-se sobre essas e outras questões tendo em vista a perspectiva da elucidação do princípio de reciprocidade. Ainda que situar adequadamente o locus conceitual das dificuldades não seja uma garantia de resolução dos problemas teóricos da formulação hobbesiana, pode-se obter um ganho no sentido de melhorar o trato com essas dificuldades.

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Marcos Ribeiro Balieiro

Ainda que muitos trabalhos tenham sido escritos sobre a filosofia de David Hume, é bastante raro vermos comentários sobre o que seria, para ele, a própria filosofia. Na maior parte das vezes, os intérpretes da obra desse filósofo limitam a caracterizá-lo como cético, naturalista, realista, sentimentalista, entre outras categorias. Entretanto, falta-lhes, comumente, uma preocupação real em julgar as teses de Hume à luz daquilo que poderia ser considerado a sua concepção de filosofia. O que pretendemos com este trabalho é justamente indicar uma forma de lidar com os textos de Hume que permita iniciar uma discussão aprofundada da concepção que ele próprio tinha da atividade filosófica. Para isso, trataremos principalmente dos textos em que o autor discute especificamente esse tema, além de recorrer, quando isso se mostrar necessário, a outros aspectos da filosofia humiana. O resultado será uma leitura em que a filosofia é considerada como bastante próxima da vida comum, já que Hume se esforça consideravelmente para representar o filósofo um ser essencialmente social, cujas investigações são pautadas por uma experiência que ele compartilha com o vulgo. Além disso, veremos que, nos textos posteriores ao Tratado da natureza humana, Hume considerou a filosofia não como algo que deveria ficar restrito às universidades, mas como uma ferramenta poderosa de formação moral para o homem comum.

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Maria Aparecida Blaz Vasques Amorim

A 435 km da cidade de São Paulo, longe dos grandes centros, em São José do Rio Preto, o Golpe Militar de 1964 também se manifestou. No dia 1º de Abril de 1964, os interventores estavam a postos dentro da Faculdade Isolada de São José do Rio Preto, hoje UNESP. Isso porque desde o final dos anos 1950, uma intensa movimentação cultural acontecia. De lá partiam anseios reais e objetivos com relação à educação pública de qualidade, alfabetização de adultos, reforma universitária e conscientização do povo através da arte. Os responsáveis por esses movimentos eram os integrantes do grupo de teatro amador GRUTA, criado pelo Professor Orestes Nigro, que surgiu como uma alternativa cultural aos estudantes.Estabelecendo intercâmbio com artistas consagrados, se apresentava nas cidades da região e em outras universidades Isoladas do interior paulista. As atividades passaram a se articular com propostas políticas de esquerda, juntando-se, por exemplo, ao MPC (Movimento Popular de Cultura) que havia sido fundado pelo Professor Wilheim Heimer, alemão, docente da faculdade. Com a intervenção, professores e alunos envolvidos nesses movimentos foram presos. O presente trabalho, valendo-se do recurso de História Oral, busca registrar, estabelecer e analisar narrativas dos sujeitos que atuaram como educadores e alunos deste grupo, desejando contribuir para a compreensão de suas experiências e dos resultados dessa intervenção para a educação superior brasileira.

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Maria Aparecida Cabañas

Esta dissertação é um estudo sobre os estrangeirismos, em especial os galicismos, e a reação purista que a aceitação e o uso desses termos causou a partir da segunda metade do século XIX. Neste trabalho descrevemos as marcas de intolerância lingüística presentes no discurso de Cândido de Figueiredo, gramático português que muito lutou para evitar a entrada de galicismos na língua portuguesa. Além disso, verificamos a concepção de estrangeirismo que vigorou nesse período e as principais causas da importação de palavras. Os resultados obtidos foram que, a importação de palavras é um fenômeno lingüístico importante na evolução das línguas; há marcas de intolerância lingüística na metalinguagem de Cândido de Figueiredo e que, apesar das severas críticas e do discurso intolerante, muitos dos galicismos rejeitados pelo gramático entrarampara a língua portuguesa e continuam em uso e em pleno vigor. Nessas condições, a elaboração desta pesquisa proporcionou a compreensão das causas da reação purista no combate aos galicismos.

 


 

Maria Cláudia Badan Ribeiro

A pesquisa teve como objetivo recuperar as redes de solidariedade formadas por mulheres que mantiveram ou não vínculos orgânicos com a ALN (Ação Libertadora Nacional) e que prestaram os mais diversos tipos de colaboração a essa organização, participando não apenas dos levantamentos para ações armadas ou diretamente de sua execução, mas desempenhando também um papel primordial na retaguarda do movimento armado. A colaboração dessas mulheres foi parte também das transformações que se processaram na sociedade da época com relação à participação da mulher no espaço público. Na militância política, elas também introduziram mudanças na divisão de papéis entre os sexos, e ressignificaram sua participação no interior dos grupos nos quais se incorporaram. Sua atividade foi fundamental para garantir a vida de pessoas bem como permitir a continuação das atividades da organização no Brasil, em especial nos momento mais repressivos da ditadura. Muito além de pequenos gestos, como se supõe, essas mulheres formaram uma força discreta, que deu aos militantes clandestinos a estabilidade necessária para continuarem a na luta.

 


 

Maria Del Carmen Tubio Pereira

Este trabalho analisa a greve dos cortadores de cana de Guariba, em maio de 1984 e a repressão que foi deflagrada contra eles pela PM de São Paulo. Esta greve comoveu a opinião pública a nível nacional por diversos motivos. Estes trabalhadores eram bóias-frias, sem tradição de organização política e sindical no interior paulista a diferença dos cortadores de cana de Pernambuco que organizavam fortes greves desde 1979 e por isso ocupavam as manchetes dos jornais. A greve foi rápida, muito radicalizada, totalmente contrária à normatização imposta pela Lei de Greve, e amplamente vitoriosa, estimulando greves e ações também radicalizadas, de milhares de bóias-frias por todo o interior paulista, Goiás e Paraná. Os cortadores de cana de Guariba conquistaram o Contrato Coletivo de Trabalho motivo pelo qual esta mobilização foi um marco na história dos assalariados rurais. Além disso, a violenta repressão policial aconteceu sob o governo de um dos maiores impulsionadores da campanha das "Diretas Já" - Franco Montoro do PMDB - que tinha finalizado no mês anterior e que havia exigido fartamente o fim da ditadura militar, de sua política econômica, de seus métodos autoritários e da exploração e violenta repressão a que submetia os trabalhadores em nível nacional. Este momento da transição democrática no Brasil, depois de quase vinte anos de regime militar, foi repleto de contradições e empurrou os diversos atores sociais e políticos a explorar os novos espaços -institucionais   ou não - que se abriram para a construção de realidade brasileira capaz de viabilizar seus projetos sociais.