Iara Lúcia Marcondes

Consultórios Gramaticais são textos metalingüísticos formados por perguntas e respostas sobre as regras prescritas pela gramática tradicional. Esse gênero discursivo, veiculado no início do século XX na mídia impressa, atualmente, é propagado também na internet, todavia, os consultórios gramaticais da internet, ao mudarem de suporte, não se modificaram suficientemente para serem considerados um novo gênero. Assim, podem ser classificados como um gênero tradicional com suporte digital. Esta dissertação tem como principal objetivo caracterizar os consultórios gramaticais como gênero discursivo, observar o discurso metalingüístico presente nos enunciados desse gênero e levantar as marcas de intolerância e preconceito lingüísticos nos enunciados dos consultórios gramaticais. Utilizamos como método de pesquisa a Análise do Discurso e como base teórica a Teoria da Enunciação e a Teoria dos Gêneros Textuais. Os principais autores referidos neste trabalho são: Maingueneau (2004); Authier-Revuz (1990) e Bakhtin (1992). O corpus para a pesquisa é composto por consultórios gramaticais impressos no início do século XX e por consultórios digitais, veiculados atualmente na internet. Os consultórios do início do século XX que foram analisados neste trabalho são de autoria de Candido de Figueiredo, Napoleão Mendes de Almeida e Mário Barreto. Já os sites com seções de consultas gramaticais que foram utilizados para a pesquisa são Sua Língua de Cláudio Moreno, Por Trás das Letras, de Hélio Consolaro e Gramática On Line de Dílson Catarino. Com a pesquisa, confirmou-se a hipótese de que as marcas de preconceito e intolerância lingüísticos é uma característica do gênero consultório gramatical.

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Inara Luiza Marim

Diversas personalidades co-habitaram em Jean-Jacques Rousseau escritor, filósofo, copista, compositor, preceptor, legislador. Mas o que marca a singularidade de seus trabalhos são os inúmeros paradoxos que o atravessam. Tantos paradoxos poderiam sugerir uma obra esquizofrênica. Não é o caso. Entre sua obra e sua vida, a proximidade e a coerência dialogam todo o tempo, na tentativa de pensar a cisão própria do homem moderno vivendo em sociedade, já que nada mais pode garantir a unidade entre indivíduo e cidadão encontrada na antiguidade. As páginas seguintes discutem as diferentes configurações da relação todo-parte, no conjunto de três trabalhos de Jean-Jacques Rousseau: Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Contrato Social e Considerações sobre o Governo da Polônia. Este recorte visa a mostrar como os paradoxos levantados por Rousseau ainda são centrais para as discussões sobre política em nossos dias

 


 

Isabel Regina Felix

Este é um estudo sobre os sapateiros na cidade de São Paulo, no período compreendido entre 1930 e os nossos dias. Por meio de fontes escritas, bibliográficas e entrevistas de história oral, a pesquisa busca identificar como se caracterizam a produção de calçados e o profissional sapateiro, bem como o posicionamento destes quanto aos assuntos ligados ao trabalho e à militância política. As histórias de vida de pessoas que pertenceram ou pertencem a essa categoria profissional compõem o ponto central do estudo. Mais do que informações acerca da profissão e da produção calçadista, trazem à luz a maneira como esses indivíduos vivem, pensam e agem, o sentimento com relação ao "ser sapateiro" e a interpretação que fazem da realidade.

 


 

Jacira de Freitas Rosa

Determinar quais as relações possíveis entre as incursões de Rousseau no campo musical e sua produção filosófica: tal é a preocupação central deste trabalho. As análises de Rousseau indicam que o ingresso no universo simbólico traz consigo a possibilidade da perda da unidade do ser e com ela a ruptura do vínculo social. Partindo da demonstração que a mediação dos signos representativos se dá em três instâncias distintas, procurou-se detectar se a mesma lógica que comanda o sistema subjaz às suas teorias musicais. A idéia de uma seqüência hierarquizada de valores que vão do mínimo ao máximo da inserção de signos representativos também se exprime em suas teorias musicais, de modo que estas se integram perfeitamente ao conjunto da obra do autor por estarem em conformidade com os princípios que fundamentam suas doutrinas. A música é, então, dotada de um estatuto singular, aquele de uma arte autêntica, pois cumpre uma função moral e política, já que se converte num instrumento eficaz na promoção da união entre os homens.

 


 

Janaína de Almeida Teles

O processo de reconstituição factual e de reflexão crítica acerca da ditadura civil-militar de 1964 e de seu legado permanece incompleto e permeado por zonas de silêncio e interdições. Decorridos pouco mais de trinta anos da Lei de Anistia, muitos acontecimentos permanecem descnhecidos ao tempo em que se observa a existência de importantes lacunas na articulação entre o legado da ditadura e a memória daqueles que a ela se opuseram ativamente. Visando contribuir para o entendimento desse passado, e de seu legado, esta pesquisa procurou caracterizar o protagonismo dos presos políticos na defesa de tranformações sociais e na luta contra a ditadura e, ao mesmo tempo, oferecer um panorama reflexivo sobre a construção de suas memórias a respeito dessas lutas e da experiência-limite da tortura e da prisão. Para alcançar esse objetivos, a pesquisa pautou-se por um amplo registro ds memórias desses protagonistas por meio da metodologia da História Oral de Vida  um conjunto de 90 entrevistas com ex-presos políticos. O que permitiu a coleta de informações até aqui inéditas no que diz respeito à organização dos presos e à atuação dos órgãos repressivos. A execução e desenvolvimento dessa metodologia deram origem a reflexões teóricas que visaram interpretar o material coletado, contextualizando-o crítica e historicamente. Partiu-se, ainda, da premissa de que tais testemunhos, juntamente com os de advogados, familiares e militantes permitiriam aprofundar as pesquisas desenvolvidas sobre as lutas revolucionárias e de resistência; a clandestinidade; as formas institucionais da repressão política e as disputas políticas estabelecidas dentro e fora dos cárceres. Os depoimentos dos ex-presos permitiram, ainda, a análise de suas estratégias de sobrevivência e memória. Tais estratégias foram aqui discutidas à luz dos esforços empreendidos para a compreensão da maneira como eles próprios reorganizaram identidades, constituíram grupos de ação política e definirarm maneiras de se relacionar com o legado das experiências-limite. Reconstruir as tramas dessa história, com o suporte do material coletado, apresenta novas possibilidades de interpretação desse período recente da história brasileira cuja atualidade permanece.

 


 

Janaína de Almeida Teles

Essa pesquisa baseia-se nos depoimentos orais das famílias de mortos e desaparecidos políticos e trata dos cruzamentos entre a esfera pública e privada na política brasileira a partir dos anos de 1970. Procura-se nesse trabalho recuperar como a ação política desses novos personagens ao buscar legitimar a expressão pública da dor e realizar o luto tem enfrentado diversos limites decorrentes dos caminhos percorridos pela transição à democracia no Brasil. Destaca-se, através de seus testemunhos, o importante papel que a luta dessas famílias assumiu na luta contra a ditadura e no processo de democratização do país. Os familiares, ao protagonizarem a luta por verdade e justiça, se tornaram os portadores da memória das violações dos direitos humanos do período da ditadura, mas a interdição do passado não lhes permitiu concluir seu luto.

 


 

João Mauro Barreto de Araújo

Através dos procedimentos da moderna história oral, formulados e discutidos no Núcleo de Estudos em História Oral da Universidade de São Paulo (Neho-USP), foi estabelecido um corpus documental sobre a cantoria de viola nordestina. São narrativas de repentistas e amantes (apologistas, pesquisadores, promoventes) da tradição do desafio poético oral, constituídas a partir de entrevistas individuais e gravações de alguns encontros coletivos. A pesquisa atentou sobre os efeitos das migrações de repentistas sertanejos para a cidade de Fortaleza: seu processo de adaptação e as negociações de identidades no curso de entrada na modernidade. As narrativas serão destinadas a uma posterior análise para decomposição do tema e resolução das questões levantadas.

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José Benedito de Almeida Júnior

O objetivo deste trabalho é analisar alguns aspectos relativos à questão da educação na obra de Rousseau. No primeiro capítulo, analisaremos a educação da natureza tal qual foi elaborada no Emílio. Nesta obra, Rousseau reflete sobre o desenvolvimento da criança e propõe objetos e formas de abordagem adequadas às diferentes idades. Desde exercícios físicos até a inserção de Emílio no mundo da moral e da política, momento fundamental, pois coroa todo o processo formando o homem da natureza. No segundo capítulo analisamos a educação pública exposta por Rousseau nas Considerações sobre o governo da Polônia e no Economia Política. Esta forma de educação está fundada nos mesmos princípios pedagógicos do Emílio, isto é,para cada idade um objeto e uma forma de abordagem que lhe é propícia. Contudo, a educação pública se diferencia da educação da natureza no que se refere ao seu caráter coletivo, mas fundamentalmente porque é própria aos povos livres, ao passo que aquela do Emílio não passa de um recurso para salvar uma alma em meio à corrupção. No terceiro capítulo, propomos uma interpretação da obra do legislador como sendo uma obra educacional, porque transforma os homens ao levar o amor de si a se transformar em amor à pátria, impedindo-o de se tornar amor-próprio. Este processo de transformação é o próprio espírito de sua obra tal como, segundo Rousseau, realizaram Moisés, Licurgo e Numa, pois suas leis tinham por objetivo afeiçoar os cidadãos entre si e à pátria. Este é o único meio de tornar um povo de fato livre, pois dá às almas uma forma nacional fazendo de um grupo de homens uma nação.

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José Eduardo Montechi Valladares de Oliveira

No período pós-Segunda Guerra Mundial, o PCB adotou como discurso um vigoroso apelo à democracia. Caminho semelhante foi adotado por todas as outras forças políticas, inclusive a extrema-direita. Isso criou um paradoxo, em um país cuja história política é marcada pela prática do autoritarismo e onde a democracia tinha pouca, ou nenhuma, tradição. O caso do PCB, especificamente, merece ser estudado por uma série de fatores: a) como um partido assumidamente stalinista poderia sustentar um discurso democrático; b) como o discurso democrático se articulava com a estratégia de tomada do poder de um partido que dez anos antes havia sido o principal articulador de um pustch; c) o estranho paradoxo representado pelos sucessivos ataques das forças conservadores ao PCB, em nome da democracia, apesar da obsessão comunista em propagar sua devoção democrática; d) a contemporaneidade dessa discussão, já que os partidos políticos majoritários falam, sem exceção, em defesa da democracia, mas as camadas populares continuam sendo mantidas afastadas dos centros decisórios.

 


 

José Roberto Severino

As pesquisas que permitiram esta tese foram concentradas no mapeamento dos investimentos de instauração de identidade italiana, na identificação de marcadores identitários em narrativas acerca de imigração e por fim nas ações efetivas nos locais considerados núcleos de descendentes por parte dos investidores europeus em Brusque, Nova Trento, Rodeio e Rio dos Cedros, todos em Santa Catarina, numa região de colonização italiana. O conjunto dos capítulos é entrecortado pela constante luta pela afirmação das identidades, pelos impasses na reivindicação cultural da italianidade por grupos ligados à igreja católica, de sua negação e afirmação pelo Estado (brasileiro e italiano, trentino) e nas relações com os grupos circunvizinhos (brasileiros, alemães, colonos, etc). Como primeiro capítulo analiso o encontro do Trentino e a instituição da italianidade em sua configuração diaspórica. Percorro o período das comemorações do Centenário da imigração italiana e trentina para Santa Catarina para entender o que promoveu a produção de novos sentidos, o estabelecimento de contatos, a organização de entidades, a religação de trajetórias familiares interrompidas pela imigração, enfim, o estabelecimento de uma nova pauta nas vidas de pessoas que passaram a valorizar elementos que regionalmente não tinham sentido além da manutenção dos estreitos laços familiares. Uma das possibilidades de explicação vai pela via da ação italiana. A presença da Itália é limitada no Brasil (no   sentido de uma presença eficaz), além do que o governo italiano mal reconhece a emigração até os anos 1970. A igreja apontava uma Itália vaga, no sentido de Roma como sede do cristianismo além do que atuavam na região )diversas ordens religiosas não italianas (alemãs, lusas) que aparecem de forma significativa na vida das pessoas nas colônias, mas que de maneira geral se mantêm fiéis ao pertencimento nacional brasileiro. Como segundo capítulo analiso o hibridismo cultural e a italianidade difusa na região a partir do registro fotográfico dos desfiles na parada do Centenário. Nelas analiso não tanto os aspectos técnicos da fotografia, mas antes as alegorias que se produziram e reproduziram nos desfiles e na historiografia. A mitificação da memória nas alegorias é a entrada para a usinagem de cada compartimento deste texto, escolhidas entre tantas outras a partir do critério de recorrência na bibliografia, para tentar entendê-las, sabendo que foram marcantes na vida daqueles imigrantes e dos grupos sociais em suas interações. Como arenas sociais mais explícitas escolhi as alegorias da escola e da capela; enquanto que no âmbito das relações interétnicas, dos constrangimentos e práticas disciplinares, a alegoria do casamento; e para discutir mais detidamente identidade e diferença, selecionei a alegoria da cachaça e do vinho. O último capítulo está pautado no movimento de reinvenção da italianidade e nas ações dirigidas aos descendentes de imigrantes na   região. Analiso os investimentos que produzem a amálgama identitária, como nas ações dos circoli de cultura italiana. Promotores de noções de "resgate cultural", disponibilizaram a apropriação de um determinado capital simbólico, que alimenta sonhos numa espécie de romance da imigração, construindo narrativas que indicam o caminho de volta através da dupla cidadania italiana. Além dos círculos e associações há ainda a questão religiosa sempre presente nos discursos que demonstram uma população católica e ações sobre o local reforçados com o processo de canonização de Madre Paulina.