Claudio Artur Mungói

A pesquisa tem por objetivo analisar as políticas agrárias que influenciaram o processo de transformações territoriais e induziram a adoção de novas estratégias de reprodução social da família rural na região agrária do Chókwè. Para tanto, a partir da aplicação do método dialético, centra-se a análise no papel do Estado com os seus modelos de desenvolvimento e também no mecanismo interno de organização da unidade familiar, bem como de outros poderes fora da esfera pública. As políticas agrárias adotadas pela administração colonial e do Moçambique independente induziram a novas dinâmicas territoriais cuja expressão traduziu-se na implementação de modelos produtivos e de organização do espaço que por um lado, trouxeram para a região do Chókwè a contradição entre a grande propriedade, provida de recursos tecnológicos, mão de obra assalariada e proteção do Estado e, por outro, uma produção familiar voltada basicamente para a subsistência da família e com pouca ou nenhuma proteção do Estado e inserção no mercado. A expropriação de terras, a imposição de novos padrões produtivos e de povoamento, a política de créditos, a guerra, as calamidades naturais constituem fatores estruturais que limitaram o desenvolvimento da produção agrícola familiar. A família rural recebeu pouquíssima atenção no período colonial e foi desencorajada durante a primeira década da independência nacional, quando a política agrária favoreceu empresas estatais e a coletivização da produção. Os 16  anos de guerra civil e a situação de emergência foram outros fatores que limitaram severamente os recursos governamentais destinados ao apoio a estas famílias. A paz e o programa de reabilitação econômica trouxeram novas territorialidades para o país e região, onde a produção agrícola familiar, pela primeira vez, passou a constituir prioridade de desenvolvimento, sobretudo através do Programa de Investimento Público do Setor Agrário

 


 

Cláudio Stieltjes

O tema apresentado trata do pensamento de Thomas More, exposto em A Utopia. A tese defendida é que a opção pelo gênero literário da poética e a escolha da ironia, sob forte influência de Luciano de Samósata, como forma de expressão do discurso utópico, constituem uma estratégia do texto moriano, que oculta seu registro ideológico e os impasses de um pensamento que não soube fundamentar a crítica social na análise historiográfica.

 


 

Clóvis Pereira dos Santos

O obscurantismo da letra lacaniana, as crises institucionais e o hermetismo da metapsicologia podem ser superados em favor das contribuições teóricas que o lacanismo poderia fornecer à historiografia da cultura. Este trabalho defende que esta assertiva já estava inscrita às proposições multidisciplinares tanto da escola dos Annales quanto dos textos ditos sociais de Freud. Assim, em uma estratégia progressiva que contemplaria tanto leitores novos às temáticas metapsicológicas quanto, espera-se, outros já mais experientes, os dois primeiros capítulos são introdutórios ao jargão lacaniano, o terceiro e quarto, reflexões sobre o estado da arte, conquanto os dois últimos constituem casos da metapsicologia aplicada à crítica ao discurso do capitalista, uma das principais contribuições da psicanálise de orientação lacaniana aos saberes ditos sociais.

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Cristiano dos Reis Souza

A presente pesquisa analisa as comissões de fábrica da MWM Motores Diesel; da Ford do Brasil - unidade Ipiranga; e da Rádio Frigor (ou Coldex Frigor) no período de 1978 a 1984. Elas surgiram durante as greves metalúrgicas de 1978, na capital paulista, em um momento de ampla movimentação política pela reconquista das liberdades civis, contra o regime de exceção instaurado no país em 1964.A organização dos trabalhadores nos locais de trabalho foi tema de debate tanto para os militantes operários de esquerda quanto para empresários e profissionais de recursos humanos, aparecendo na grande imprensa, bem como na de âmbito sindical. Foi também escopo de disputa política entre grupos de concepções ideológicas diferentes e, em certos aspectos, conflitantes. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, o maior sindicato da América Latina, contava com aproximadamente 400.000 (quatrocentos mil) metalúrgicos em sua base territorial, era caracterizado por práticas de assistencialismo e de delação de operários combativos às empresas e aos órgãos repressivos da ditadura militar. As comissões de fábrica foram eleitas pela Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSM-SP) como a maneira de se opor ao imobilismo da diretoria do Sindicato e à estrutura sindical brasileira.

 


 

Damião Duque de Farias

A tese de doutorado apresenta reflexões acerca das transformações da Igreja a partir de meados do século XX, que culminariam na formação da pastoral popular ou progressista católica. A análise tomou como objeto de estudo a Arquidiocese de São Paulo, no período considerado. Procurou-se ao longo dos três capítulos compreender a evolução do catolicismo, enfatizando tanto suas relações internas quanto suas relações externas com a política e sociedade brasileiras. Buscou-se um ponto de vista abrangente, postulando, por meio da crítica documental e bibliográfica, que a pastoral progressista católica, formulada a princípio dos anos 70 sob a liderança de Dom Paulo Evaristo Arns, qualificou-se por um certo romantismo, a um só tempo revolucionário e conservador, estando enredada nos limites do projeto da instituição-Igreja, os quais impediam uma práxis verdadeiramente radical e transformadora das relações sociais.

 


 

Davi Félix Schreiner

Este estudo trata das experiências contemporâneas de trabalhadores rurais em movimentos de resistência organizada, no Sudoeste e Oeste do Paraná, na faixa de fronteira do Brasil com o Paraguai e a Argentina, entre 1985 e 2001. Analisar as experiências de organização da vida cotidiana nos assentamentos rurais constitui o objetivo central. A investigação centrou-se nas contradições evidenciadas nos processos de organização das diferentes formas cooperativas e ou associativas e de como foram vividas pelos assentados, no fazer-se das experiências da vida cotidiana. Para a pesquisa optou-se pela escolha do Assentamento Vitória, localizado no município de Lindoeste, com 152 famílias assentadas, pelo Assentamento Terra Livre, localizado no município de Nova Laranjeiras, com 30 famílias assentadas, ambos vinculados ao MST, e pelo reassentamentos rurais dos expropriados da Usina Hidrelétrica de Salto Caxias, em vários municípios da região Oeste, com 612 famílias, vinculadas à Crabi/MAB. Na medida em que os assentamentos não constituem espaços sociais isolados, sua organização interna e formas de solidariedade e cooperação foram analisadas, de um lado, a partir do exame dos nexos entre as transformações da estrutura agrária no espaço regional, a articulação da resistência dos sem-terra e o surgimento dos assentamentos rurais, suas formas de organização da terra e do trabalho, no espaço regional em foco. E, de outro lado, como mediações produzidas nas relações sociais e como processos que integram a dinâmica de movimentos sociais, foram investigadas na relação com o fazer-se da luta pela terra a partir das múltiplas representações que os próprios assentados elaboram como memória de suas trajetórias de vida. Neste contexto, os assentamentos configuram ambiências: espaços sociais e de produção material da vida onde afloram pluralidade e heterogeneidade permeadas pelas relações de poder, por teias de contradições e de conflitos em torno de hábitos, valores e tradições. Neles evidenciam-se tanto as contradições de classe como as inerentes à formação da categoria social de assentados. Uma das principais materializa-se na possibilidade de os assentados retecerem o modo de vida de colono e a práxis em torno de um novo projeto de organização social da produção e de vida comunitária dos seus mediadores. As propostas de cooperação, sobretudo as formas coletivas da terra e do trabalho, são vistas pela maioria dos assentados como um limite à realização da liberdade e autonomia. O estudo mostra que, no esforço de implantar a cooperação nos assentamentos, a concepção dualista do MST, do coletivismo versus individualismo, levou à discriminação dos assentados “individuais” e revelou-se redutora da pluralidade de experiências de cooperação vivenciadas. A coletivização é estranha à sua cultura e constitui-se numa forma redutora do seu modo de vida e utopias. Tal desencontro evidencia a necessidade de valorizar a cultura dos assentados e de considerar suas tradições e valores na formulação de uma política de cooperação na luta. Revela também que é preciso superar práticas autoritárias e de subordinação política na relação entre mediadores e assentados, como uma das condições para uma nova qualidade de vida individual e coletiva, alicerçada nas diferentes formas de reciprocidade horizontal, na democracia e na cooperação.

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Douglas Ferreira Barros

Esta dissertação investiga o problema do enfraquecimento e da dissolução do Estado no pensamento de Maquiavel. A partir do conceito maquiavélico de estado, observa-se que a noção de conservar o poder na ordem política contempla também a idéia dadestruição. A instabilidade tem lugar central no debate porque nos permite explicar que nenhuma ordem política está imune ao desgaste que provocam as mudanças de interesse entre os indivíduos grupos e partidos que ela contém. Nem mesmo o uso dosmeios extraordinários - a força - pode sustentar as situações limite nas quais os governantes podem se encontrar. Neste ponto, a noção de "necessidade" mostra que o máximo de fragilização a que pode chegar o domínio prenuncia a destruição daforma política na qual o estado está constituído. Maquiavel nos faz compreender, pela descoberta do sentido da história de Roma e da lógica das dissoluções, que a destruição de uma forma política não é em si um fato exclusivamente negativo. Elepode representar um impulso para a reconstrução do poder político - a (re) fundação. No entanto, a dissolução revela também uma face puramente negativa. Desta forma ela se coloca como negação do conflito que constitui o princípio da instituição do poder. Neste momento, a análise do sentido das transformações políticas descritas nas Histórias Florentinas torna-se o pano de fundo para aprofundarmos o caráter deste elemento que é destruidor do fundamento da própria política para Maquiavel, a saber, a   realidade da "não-política".

 


 

Douglas Ferreira Barros

Esta tese pretende demonstrar que a teoria da sobernia de Jean Bodin, apresentada no Methodus ad facilem historiarum cognitionem (1566), satisfaz à exigência de um julgamento metódico do conceito de república, constituindo-se como confrontação e crítica aos princípios do republicanismo renascentista da Itália. Diferentemente das abordagens ao pensamento de Bodin que consideram o texto de 1566 uma antecipação e um resumo da teoria da soberania apresentada nos Six livres de la République (1576), esta tese pretende mostrar que o esforço para criar um método para o conhecimento da história levou Bodin à filosofia política ou à civilis disciplina. Isto permitiu ao autor revisar os princípios do conceito de república, opondo-os aos princípios republicanos de Maquiavel e à liberdade civil veneziana. Essa oposição é necessária para o argumento de Bodin uma vez que sua teoria da soberania no Methodus não está baseada em uma filosofia do direito.

 


 

Edivaneide Barbosa da Silva

A presente pesquisa refere-se ao processo de escolarização de crianças e jovens do assentamento Pirituba II, localizado nos municípios de Itapeva e Itaberá, região sudoeste paulista. Trata-se de um Projeto de Assentamento Rural (PA) que está sob a responsabilidade da Fundação Itesp, sendo resultado das ocupações de terras realizadas por famílias camponesas nos anos de 1980, as quais se organizaram em entidades sindicais, pastorais e no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST.) A educação básica tornou-se uma realidade no lugar, devido às lutas por direitos, organizadas, sobretudo, pelo MST. Desde as primeiras ocupações na Fazenda Pirituba, as famílias desenvolveram lutas pelo acesso à cultura letrada para as novas gerações do assentamento. No total são cinco escolas públicas que atendem os filhos dos camponeses assentados. Adentramos nessas escolas para analisar a natureza do projeto político-pedagógico das mesmas, com a pretensão de verificar se ocorreram práticas dialógicas entre educadores, educandos e famílias que participam do MST. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de observação/participante. Tais procedimentos metodológicos, alinhados aos referenciais teóricos deste trabalho, possibilitaram-nos apresentar reflexões acerca dos encontros e desencontros entre a ação políticopedagógica de educadores e assentados. Palavras Chaves: Educação Escolar/ Assentamento Rural/ MST./Projetos pedagógicos/ Educação Libertadora.

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Eduardo Cardoso Braga

Trata-se de investigar as relações entre a teoria do conhecimento e a política no pensamento de Jean-Jacques Rousseau. Para tanto, foram analisadas as diferenças conceituais entre a teoria do conhecimento rousseauísta e o "materialismo", bem como suas implicações no campo moral. A principal objeção de Rousseau ao que chama de "materialismo" é a ausência, nessa teoria, de qualquer faculdade inata e espontânea. Ao contrário, Rousseau insiste em estabelecer a atividade espontânea de nossos julgamentos. Isso conduz diretamente ao voluntarismo professado por Rousseau, cujas inevitáveis conseqüências no estabelecimento do contrato e da vontade geral cabe também examinar. A presença da liberdade nas atividades humanas poderia pôr em risco o perfeito equilíbrio das forças na República. É necessário criar, pois, mecanismos que inspirem, no indivíduo, o sentimento de identificação com o corpo social. É necessário, em suma, formar o cidadão.