Teses e Dissertações do Grupo de Pesquisa Filosofia e Direitos Humanos

As metamorfoses da sedição: religião e política em Hobbes

Everson Machado

O tema da religião adquiriu uma importância cada vez maior nos livros de Hobbes, a ponto de dar o nome e ocupar metade de seu livro mais famoso, o Leviatã. No entanto, em sua classificação das ciências, Hobbes exclui todos os temas da religião. A questão então é saber como um autor que tem um discurso inflexível sobre a ordem das razões trata de um assunto que, de antemão, foge ao saber filosófico. Hobbes apresenta duas versões de seus princípios de hermenêutica. Em ambas as versões, o resultado político é o mesmo: a última palavra sobre as Escrituras deve ser do soberano. No entanto, as conseqüências históricas são bastante diversas. A primeira versão encontra-se no De Cive, de feição humanista, enfatiza o aspecto histórico-literal do texto e não desconsidera a tradição. A segunda, a do Leviatã, assemelha-se ao modelo protestante de leitura interna e por analogia, mas também pode ser assimilada ao discurso filosófico dedutivo. A leitura humanista termina por interditar a interpretação das Escrituras como algo superior às possibilidades de conhecimento humano, sendo apenas possível confiar em uma autoridade cujo fundamento não seja humano, a saber, a igreja anglicana. A leitura filosófico-protestante é desenvolvida em circunstâncias históricas diferentes - em que a igreja não pode mais ser o fundamento da autoridade das Escrituras - e tem conseqüências diversas, resultando em uma leitura radical, contra a igreja visível. Contudo, as duas   interpretações - a humanista, historicizante, e a leitura filosófica, lógica complementam-se e apontam para um outro sentido de compreensão da história

 


 

Equilíbrio da natureza - equilíbrio na sociedade:configurações todo-parte na filosofia de Jean-Jacques Rousseau

Inara Luiza Marim

Diversas personalidades co-habitaram em Jean-Jacques Rousseau escritor, filósofo, copista, compositor, preceptor, legislador. Mas o que marca a singularidade de seus trabalhos são os inúmeros paradoxos que o atravessam. Tantos paradoxos poderiam sugerir uma obra esquizofrênica. Não é o caso. Entre sua obra e sua vida, a proximidade e a coerência dialogam todo o tempo, na tentativa de pensar a cisão própria do homem moderno vivendo em sociedade, já que nada mais pode garantir a unidade entre indivíduo e cidadão encontrada na antiguidade. As páginas seguintes discutem as diferentes configurações da relação todo-parte, no conjunto de três trabalhos de Jean-Jacques Rousseau: Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Contrato Social e Considerações sobre o Governo da Polônia. Este recorte visa a mostrar como os paradoxos levantados por Rousseau ainda são centrais para as discussões sobre política em nossos dias

 


 

A lira de orfeu: a arte do músico na origem da comunicação filosofia e música em Rousseau.

Jacira de Freitas Rosa

Determinar quais as relações possíveis entre as incursões de Rousseau no campo musical e sua produção filosófica: tal é a preocupação central deste trabalho. As análises de Rousseau indicam que o ingresso no universo simbólico traz consigo a possibilidade da perda da unidade do ser e com ela a ruptura do vínculo social. Partindo da demonstração que a mediação dos signos representativos se dá em três instâncias distintas, procurou-se detectar se a mesma lógica que comanda o sistema subjaz às suas teorias musicais. A idéia de uma seqüência hierarquizada de valores que vão do mínimo ao máximo da inserção de signos representativos também se exprime em suas teorias musicais, de modo que estas se integram perfeitamente ao conjunto da obra do autor por estarem em conformidade com os princípios que fundamentam suas doutrinas. A música é, então, dotada de um estatuto singular, aquele de uma arte autêntica, pois cumpre uma função moral e política, já que se converte num instrumento eficaz na promoção da união entre os homens.

 


 

A questão da educação na obra de Jean-Jacques Rousseau

José Benedito de Almeida Júnior

O objetivo deste trabalho é analisar alguns aspectos relativos à questão da educação na obra de Rousseau. No primeiro capítulo, analisaremos a educação da natureza tal qual foi elaborada no Emílio. Nesta obra, Rousseau reflete sobre o desenvolvimento da criança e propõe objetos e formas de abordagem adequadas às diferentes idades. Desde exercícios físicos até a inserção de Emílio no mundo da moral e da política, momento fundamental, pois coroa todo o processo formando o homem da natureza. No segundo capítulo analisamos a educação pública exposta por Rousseau nas Considerações sobre o governo da Polônia e no Economia Política. Esta forma de educação está fundada nos mesmos princípios pedagógicos do Emílio, isto é,para cada idade um objeto e uma forma de abordagem que lhe é propícia. Contudo, a educação pública se diferencia da educação da natureza no que se refere ao seu caráter coletivo, mas fundamentalmente porque é própria aos povos livres, ao passo que aquela do Emílio não passa de um recurso para salvar uma alma em meio à corrupção. No terceiro capítulo, propomos uma interpretação da obra do legislador como sendo uma obra educacional, porque transforma os homens ao levar o amor de si a se transformar em amor à pátria, impedindo-o de se tornar amor-próprio. Este processo de transformação é o próprio espírito de sua obra tal como, segundo Rousseau, realizaram Moisés, Licurgo e Numa, pois suas leis tinham por objetivo afeiçoar os cidadãos entre si e à pátria. Este é o único meio de tornar um povo de fato livre, pois dá às almas uma forma nacional fazendo de um grupo de homens uma nação.

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Hobbes e a reciprocidade. Uma investigação sobre a relevância da regra de ouro das leis naturais na teoria política hobbesiana

Marcelo Gross Villanova

Base da postulação da comunidade política, as leis naturais são resumidas por duas frases, faça aos outros o que gostaria que fizessem a si e a outra não faça aos outros o que gostaria que não fizessem a ti. Hobbes denomina essa síntese das leis naturais de princípio de reciprocidade. Fora essas duas frases, Hobbes não apresenta maiores esclarecimentos quanto ao seu significado. A presente pesquisa pretende refletir sobre a teoria política hobbesiana a partir da problematização do sentido do princípio de reciprocidade, colocando em evidência algo que não está bem explicado e que não ocupa um lugar de pouca importância na sua teoria política. Na literatura crítica é bem conhecida a controvérsia a respeito do papel das leis naturais, da relação entre as leis naturais e leis civis, do direito de resistência, do direito de punir, silêncio das leis. Reflete-se sobre essas e outras questões tendo em vista a perspectiva da elucidação do princípio de reciprocidade. Ainda que situar adequadamente o locus conceitual das dificuldades não seja uma garantia de resolução dos problemas teóricos da formulação hobbesiana, pode-se obter um ganho no sentido de melhorar o trato com essas dificuldades.

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Essa mistura terrena grosseira: filosofia e vida comum em David Hume

Marcos Ribeiro Balieiro

Ainda que muitos trabalhos tenham sido escritos sobre a filosofia de David Hume, é bastante raro vermos comentários sobre o que seria, para ele, a própria filosofia. Na maior parte das vezes, os intérpretes da obra desse filósofo limitam a caracterizá-lo como cético, naturalista, realista, sentimentalista, entre outras categorias. Entretanto, falta-lhes, comumente, uma preocupação real em julgar as teses de Hume à luz daquilo que poderia ser considerado a sua concepção de filosofia. O que pretendemos com este trabalho é justamente indicar uma forma de lidar com os textos de Hume que permita iniciar uma discussão aprofundada da concepção que ele próprio tinha da atividade filosófica. Para isso, trataremos principalmente dos textos em que o autor discute especificamente esse tema, além de recorrer, quando isso se mostrar necessário, a outros aspectos da filosofia humiana. O resultado será uma leitura em que a filosofia é considerada como bastante próxima da vida comum, já que Hume se esforça consideravelmente para representar o filósofo um ser essencialmente social, cujas investigações são pautadas por uma experiência que ele compartilha com o vulgo. Além disso, veremos que, nos textos posteriores ao Tratado da natureza humana, Hume considerou a filosofia não como algo que deveria ficar restrito às universidades, mas como uma ferramenta poderosa de formação moral para o homem comum.

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Da máquina corpórea ao corpo sensível: a medicina em Descartes

Marisa Carneiro de Oliveira Franco Donatelli

Comumente, os estudos sobre Descartes voltam-se para questões ligadas à metafísica, à moral e às ciências nas quais o seu mérito é reconhecido quase que por unanimidade. O mesmo não ocorre no que concerne à sua incursão na medicina: em geral, a importância de seus textos ligados a essa área é minimizada. Porém, a partir da contextualização dos estudos de Descartes ligados à medicina no pensamento médico de sua época, evita-se adotar a postura anacrônica que está, muitas vezes, na base da rejeição da importância desses textos médicos. Na tentativa de mostrar a importância desses estudos e sua integração ao sistema cartesiano, este trabalho procura defender uma posição que vai de encontro àquela que é sustentada por alguns comentadores. Segundo ele, o filósofo não só fracassou em seu intento de construir uma medicina, como sua obra médica não apresenta o mesmo brilho que caracterizou seus trabalhos voltados para a matemática ou para a geometria, por exemplo. Neste estudo sobre a medicina cartesiana são destacados dois pontos básicos: i) os pressupostos metafísicos sobre os quais ela se funda; ii) a evidência própria ao âmbito da medicina, que é a evidência experimental. Esses dois pontos deste trabalho, segundo a qual a medicina está integrada ao sistema filosófico cartesiano, constituindo uma ciência que apresenta características próprias às ciências que lidam com as coisas compostas, como é o caso da Medicina ao lado da Física e da Astronomia.

 


 

Irritabilidade e sensibilidade: Fisiologia e Filosofia de Albrecht Haller

Marisa Russo

Em que medida os conceitos de "irritabilidade" e "sensibilidade", propostos por Albrecht Haller (1752) contribuíram para um nova concepção das estruturas nervosas no interior dos discursos médico e filosófico do século XVIII? Ao final do século XVII, o fracasso das teorias mecanicistas aplicadas ao estudo do ser vivo se tornava cada vez mais evidente, principalmente no que diz respeito às explicações fisiológicas e patológicas das estruturas nervosas e musculares. Por outro lado, as discussões filosóficas do século XVIII relativas ao conhecimento humano e aos limites de nossa experiência sensível exigiam cada vez mais um estudo aprofundado sobre a fisiologia dos sentidos e a sensibilidade. Neste contexto, a teoria da irritabilidade e sensibilidade de Haller se apresenta como uma possibilidade de repensar a fisiologia das estruturas nervosas para além das explicações mecanicistas e animistas já conhecidas no século XVIII ao mesmo tempo em que se apresenta como uma possibilidade de repensar certos problemas filosóficos ligados às sensações, discutidos neste mesmo período. Sendo assim, uma resposta parcial e preliminar a esta questão pode ser elaborada, primeiramente através de uma análise das condições de possibilidade e necessidade epistemológicas destes conceitos no estudo do ser vivo. Em seguida, faremos uma análise das consequências da teoria de Haller no interior das discussões científicas e filosóficas do iluminismo.

 


 

História e política em Maquiavel

Patrícia Fontoura Aranovich

O objetivo deste trabalho é examinar as relações entre política e história em Maquiavel. A filosofia política de Maquiavel rompe com a idéia de exemplaridade do passado, abrindo caminho para uma reflexão em que os tempos se tornam mensuráveis entre si. A história não se reduz, na obra de Maquiavel, a uma condição de subordinação ao pensamento abstrato que formula regras para a ação política. A obra política incorpora a própria história na medida em que os exempla se inserem em seus textos sob um duplo aspecto. Por um lado, como matéria de reflexão e não como mera ilustração de algo que havia sido teoricamente concebido. Por outro, o próprio exemplo tem um caráter histórico, enraizado nas situações concretas das quais emergiu, o que o relativiza. Deste modo, a superação da simples constatação de momentos discretos se dá pela inserção do exemplo, assim como das circunstâncias que o concernem, no percurso da República, a qual, por sua vez, traz em si movimentos que conferem inteligibilidade à história. Ao escrever a História de Florença, Maquiavel tem de lidar com o modelo historiográfico renascentista, o que lhe impõe algumas limitações. Mas a narrativa retém a concepção de história elaborada nos escritos políticos e, ao centrar sua interpretação nas questões das divisões da república, da corrupção e da perda da liberdade, Maquiavel revela o percurso da cidade de Florença a partir da percepção dos seus movimentos e, como na obra política, ultrapassa a descrição   dos acontecimentos. Deste modo, a obra histórica de Maquiavel representa uma continuidade com relação à sua obra política.

 


 

Poder e legitimidade em Maquiavel: como fazer um Princípe novo parecer antigo

Patrícia Fontoura Aranovich

O objetivo deste trabalho é estudar a questão da legitimidade do poder em Maquiavel, tendo como centro o principado novo. Assim, pela compreensão de como se realiza a inserção do principado novo na teoria de Maquiavel, por meio da análise de sua concepção de história, podemos entender a natureza da legitimidade neste tipo de principado. Para tanto, partimos da discussão do papel da história para Maquiavel, pelo exame dos pressupostos que fundamentam sua concepção. A partir disso,procedemos a divisão dos dois sentidos pelos quais a história pode ser compreendida em sua aplicação ao político: no que se refere à história dos Estados e no que se refere aos períodos singulares, nos quais os homens podem inscrever suas ações.Por este último sentido chegamos à possibilidade da aplicação política do conhecimento histórico e à questão da fundação do Estado. A ligação entre fundação e legitimidade se faz pela utilização da análise de três gêneros de principado em função da legitimidade (principado hereditário, principado eclesiástico, principado civil). Chegamos assim ao principado novo e ao modo pelo qual se estabelecem seus fundamentos. Desta maneira, analisamos a questão da fundação do Estado como obra de um único homem e os meios de instituição dos fundamentos do Estado. A seguir, pela compreensão da legitimidade como construção, analisamos os mecanismos pelos quais se torna possível ao príncipe realizá-la